quince cheese

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Quince cheese is one of my first memories of being lost in translation.

First things first: quince cheese is a paste made of quince, which has been previously stewed with sugar on low heat for a while. It is then processed and, once cool, becomes firm. You can then slice it like a cheese and eat it on toast, in sandwiches with butter, or as tradition calls, with a slice of cheese. This last pairing is so perfect and so meant to be, that where I come from, it is called “Romeu e Julieta”.

In Portugal, my mother land, quince cheese is named with just one word – marmelada. It is something mothers and grandmothers cook to preserve quince that falls abundantly from the trees. My grandmother always got her quince from the neighbours who had much more than they could manage and left them in plastic bags at her door.

As a kid, I lived in England for a couple of years. Once, my mum made marmelada and I was eager to take it to school and share my favourite portuguese lanche with my friends. It didn’t go down quite as I expected. First, I had no idea what marmelos were called in English and found myself mumbling explanations and that it didn’t matter because it was so good. It was pointless. My friends took a look at that red paste sitting in a Tupperware and, to my dismay, very quickly declared it as “weird”.

Weird as it may have been to my childhood friends, still oblivious to the deliciousness of intercultural discoveries, I was faithful to marmelada and might have even promised said marmelada that I wouldn’t ever stop liking it or eating it, with bread and butter, cheese or by the slice.

The thing is, marmelada is not just a very delicious, familiar, comforting thing you put in your mouth.

It is the smell of lanche in the playground and in the lunchroom at school.

It is feeling that you are becoming independent when someone gives you your very own quince, instead of giving them to your grandma or to your mum, because you now live alone and have your own kitchen to play in.

It is not really knowing what to do with abovementioned quince and calling grandma for guidance on a recipe with only two ingredients and water, gradually interweaving the steps of making marmelada with catching up with her. This week we went to a yoga class and your grandfather didn’t really like it,… now you put a layer of sugar, a layer of quince, a layer of sugar,… you know, I tried a new bread recipe, it works very well in the bread machine! Now you put the lid on the pan and let it simmer very gently.

It is never being able to nail quince jelly, even with grandma’s guidance, and knowing that hers was the best forever and ever, amen.

It is making marmelada and realizing that now I am on my own and I can’t call her just to check if the quantity of sugar is right.

It is also making marmelada and giving away bowls full of it to my friends, sometimes getting theirs in return and exchanging ideas, and finding generosity and sharing and a sense of community while living in a new place, where neighbours are new, good friends hard to find, everything is apparenty unfamiliar and sometimes you miss home. When you give away a bowl of marmelada and and get cabbage, cherries, sprigs of mint from the garden or thankful smiles in return, you get the feeling that something is falling into place and everything will be just fine.

Marmelada é uma das minhas primeiras memórias de me ver perdida na tradução e nas diferenças culturais.

É difícil encontrar alguém de língua materna Portuguesa que não saiba o que é marmelada. Mas, frequentemente, a marmelada exige uma explicação para pessoas de outras línguas e de outras culturas. A tradução quince cheese, mostra o quanto a marmelada não é algo inerente à cultura inglesa. Na verdade, a palavra Inglesa marmelade tem origem na palavra Portuguesa (marmelada), originalmente feita com marmelos, mas é mais frequentemente utilizada na língua inglesa para designar uma compota de citrinos, ficando os marmelos relegados para segundo plano.

No entanto, para nós, marmelada é no pão com manteiga do recreio, é com queijo, é às fatias, é como calhar. É a fruta abundante que vem dos vizinhos, das tias e das amigas, que a mãe e a avó cozinham em grandes quantidades para guardar para o resto do ano.

Quando era criança, vivi em Inglaterra durante um par de anos. Uma vez, a minha mãe fez marmelada e eu estava em pulgas para levá-la para a escola para partilhar com os meus amigos durante o lanche. O meu orgulho inchado levou, num instante, com um balde de água fria. Para começar, não fazia ideia de como se dizia marmelos em inglês. Comecei a contornar a situação com demasiadas explicações sobre o quanto isso era irrelevante porque era mesmo muito boa. Não me serviu de muito. Os meus amigos olharam para o Tupperware onde estava alojada aquela massa cor de rubi e decidiram, muito rapidamente, que era “esquisita”. Eu fiquei triste e envergonhada.

Mas: por muito esquisita que possa ter parecido para os meus amigos de infância, ainda desconhecedores das experiências deliciosas que a interculturalidade pode proporcionar, eu era fiel à minha marmelada. Posso até ter prometido à dita marmelada que iria sempre gostar dela, quer fosse com pão e manteiga, queijo ou sozinha.

É que a marmelada não é apenas aquela coisa deliciosa, familiar e reconfortante que comes.

É o sentimento de ser independente quando alguém te oferece marmelos pela primeira vez, e não à mãe ou à avó, porque agora tens a tua casa e uma cozinha em que és tu que mandas.

É não ter bem a certeza do que fazer com os marmelos e ligar à avó para ela te orientar numa receita que só tem dois ingredientes e água, pondo a conversa e fazendo as coisas à medida que ela te vai dando as dicas. Esta semana fomos ao yoga, mas o teu avô não gostou lá muito… agora deitas ora uma camada de açúcar, ora uma camada de água… olha! Experimentei uma nova receita na máquina do pão e ficou deliciosa! Agora pões o testo e deixas cozinhar em lume brando…

É nunca conseguir fazer geleia como deve ser, mesmo com a orientação da avó, sabendo que, de toda a maneira, a dela é a melhor para todo o sempre.

É cair na realidade de que agora, quando fizeres marmelada, já não lhe podes ligar só para ter a certeza de que a quantidade do açúcar está bem.

Mas também é fazer taças e taças de marmelada, e distribuí-la aos amigos, por vezes recebendo a deles de volta, trocando ideias sobre o processo. É encontrar a generosidade, a partilha e um sentimento de comunidade numa vida nova, onde os vizinhos são novos, os bons amigos são difíceis de encontrar, e onde às vezes tens saudades de casa. Quando ofereces uma taça de marmelada e recebes couves, cerejas, raminhos de menta do jardim ou um sorriso de volta, ficas com a sensação de que as coisas estão a cair no seu lugar e de que tudo vai correr bem.

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